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É proibido sentar

fevereiro 1, 2010

Siesta

Foto cortesia de _iBaNe_ via Flickr

Saiu em alguns jornais: é proibido deitar em bancos em 9 parques de São Paulo. Também é proibido andar de bicicleta, skate, patins. Também não valem “trajes ou atitudes atentatórias à moral e aos bons costumes”. Essa é a São Paulo que vivemos. Essa é a Sampa que não é uma cidade. Ou talvez seja, afinal pra que serve uma cidade?

Uma particularidade da ex-cidade da garoa é que, em algum nível, ela comporta todos os vícios e qualidades das cidades brasileiras. E geralmente numa escala muito maior. Nesse sentido, ela vira metonímia do país. Nesse caso específico, a referência é a forma como se lida com os  problemas no Brasil.

Quando não se sabe como resolver um problema, proibe-se. É o jeitinho brasileiro de lidar com os males da sociedade. Em alguns casos, pode ser interessante, como na guerra contra o fumo passivo. Em outros, é uma forma bem contraproducente de lidar com um problema.

Quem não ouviu a avó, tia, pai, mãe reclamar que tal praça está cheia de “maconheiros”, e que não é para você passar lá. Criança não deve brincar nesses lugares. Aliás, é melhor que todos evitem esses locais e, finalmente, vamos cercar essa praça e fechar durante a noite. Só que a medida que parece resolver o problema acaba não resolvendo nada. Muitas vezes pioram. Se tem menos gente em um lugar, esse lugar tende a se tornar mais inseguro e, portanto, atrair menos gente. Da mesma forma, a retomada do espaço público inibe a violência e atividades ilícitas e/ou prejudiciais à sociedade. Se as crianças estão brincando no parquinho, os “maconheiros” evitam esse local. O mesmo serve para traficantes ou até ladrões (e olha que não estou colocando todo mundo no mesmo balaio, por isso as aspas no termo maconheiros).

São Paulo vem fechando parques e praças durante a noite, impedindo que muita gente tenha um lugar de lazer gratuito. O Parque da Aclimação é um exemplo. A partir das 19h ele é fechado. Se você chegar ao parque nesse horário, vai notar a quantidade de frequentadores que são “expulsos”. O fato é que muita gente chega em casa tarde e não pode sequer aproveitar o local.

Por outro lado, temos uma cidade sem bancos nas praças. O metrô Vila Madalena está sempre cheio de gente, mas não há sequer um banco para se sentar. As pessoas acabam encostando onde puderem. Por quê? Porque quem senta é vagabundo – e quem deita então, não tem nada melhor o que fazer na vida. Tenho a impressão de que se trata de herança da ditadura, do utilitarismo militar. Ou você tem coragem de dizer que estão sem fazer nada quando seu chefe pergunta se você está ocupado? Tudo isso está no nosso inconsciente, mas é preciso mudar. Oras, ninguém está SEMPRE fazendo alguma coisa fundamental. E isso é ótimo! Precisamos de tempo, de descanso, de lazer, de tranquilidade.

A discussão vai longe, e eu vou convidar você, leitor, a dar sua opinião nos comentários. Penso que é um assunto que vale ser revisitado – e já tenho muitas ideias sobre o que dizer a partir daqui. Mas antes gostaria de saber o que você pensa. Afinal, novamente, o que é a cidade para você?

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Em tempo: quem decide o que é um traje ou atitude atentatórios à moral e aos bons costumes? Moral de quem? Costumes de quem?

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15 comentários

  1. Quanto a se deitar no banco da praça é uam coisa que eu sempre vi em desenhos e nunca entendi o motivo do guarda “expulsar o pica pau” prq ele estava deitado…

    Mas por outro lado temso que pensar da seguinte forma… Um parque DEVERIA ser lotado de pessoas certo? Portanto se tem muitas pessoas as vezes os bancos ficam cheios, porém se tem um “folgado” ocupando sozinho um banco inteiro isso sim é falta de educação…

    Só opinião que me veio a cabeça conforme eu estava lendo seu texto.


  2. Phil,
    Se o parque está lotado e alguém deita no banco, você tem o direito de pedir que a pessoa se sente para que você também possa sentar. Daí a ser algo legislado, é um tanto estranho não? O guarda “expulsava” o pica pau justamente pq existe essa ideia de vadiagem, vagabundagem. Mas vá para a Europa, para a Espanha ou França e veja como as pessoas vivem os parques. Nem tão longe: dê um pulo em Buenos Aires e vc verá como tem “vagabundo” no mundo.


  3. veja bem.. não estou chamando quem deita no parque de vagabundo! Muito pelo contrário acho que o melhor do parque é isso!

    Acontece que muitas pessoas sentem vergonha de pedir para que a outra pessoa se levante.

    Acho que este é apenas um item que eu quis comentar, pois como falei lembrei do desenho do pica pau (e outros claro). Mas agora outros itens são mais importantes, como por exemplo o fato do brasileiro ao inves de resolver o problema acaba proibindo aquilo.

    Nosso transito é um exemplo perfeito disto! Por exemplo existe um cruzamento na Giovani Gronchi aqui em SP onde geralmente causava muito trânsito pois muitas pessoas entravam a esquerda enquanto ou tras precisavam seguir em frente(não consigo explicar muito bem mas vou tentar fazer um desenho no meu blog pra explicar hehehe) o que eles fizeram para “resolver” o transito? Proibiram a entrada a esquerda.

    Onde o correto, pelo menso ao meu ver seria um farol para entrada a esquerda, um para a pista da direita e um para a pista da esquerda. e claro um tempo maior para o pedestre passar.

    Maaaaaaaas como foi dito aqui é mais fácil proibir que resolver.


  4. Quanto a fechar os parques à noite eu até entendo. Questão do medo da violência e tal, mas proibir bicicletas, patins, deitar nos bancos… Para que servem um parque afinal? Não seria um lugar público em que as pessoas podem praticar esportes, relaxar, ler, meditar, se permitir ficar sem fazer nada?
    Acho que o que disseram tem sentido, proibir é mais fácil do que lidar com o problema. Mas isso não é eficaz, já que proibir não educa ninguém e não elimina o comportamento que se tenta evitar. Que o diga o maldito “jeitinho brasileiro”…


  5. [...] This post was mentioned on Twitter by Quintal and Vitor Leal Pinheiro, Camila Andrade. Camila Andrade said: Quando não se sabe como resolver um problema, proibe-se. http://tinyurl.com/yh6olhr (via @quintal) [...]


  6. [...] – Idéias para um mundo melhor Idéias para um mundo melhor « É proibido sentar Capacete é coisa que colocaram na sua cabeça fevereiro 4, [...]


  7. qd vc fala do fumo mostra que no fundo tem o mesmo racionício desses legisladores que tentam resolver problemas com proibições. Só que vc só se incomoda qd proibem algo q vc acha errado, qd vc acha certo apoia… Esse é o famoso jeitinho brasileiro do meu primeiro.

    Se vc acha um absurdo essa forma ditatorial de resolver os problemas, seja contra ela sempre. Inclusive qd ela resolver algo q vc defenda. Pra mim aquela frase tirou a credibilidade de todo o texto.


  8. Henrique, há uma grande diferença entre ser contra as proibições como solução e dizer que não concorda com nenhuma proibição. O problema do fumo e, também, de saúde pública. O fumante acaba invadindo o direito do outro de não fumar. Tb sou a favor de restringir o uso do carro nas cidades e não estou falando de rodízio. Diminuir as vagas, limitar a entrada, etc. Isso não invalida minha argumentação de que a cultura do proibir é um problema brasileiro. O ato de proibir e limitar tem consequências e “educa e deseduca”. Quando você tira bancos e fecha praças, vc passa a imagem de que não quer as pessoas nesses espaços. É isso o que queremos? Por outro lado, qdo vc proibe o cigarro em lugares públicos fechados, vc está dizendo q não quer q as pessoas fumem onde existem outras pessoas q fumam.

    Dizer que 1 frase tira a credibilidade de todo um texto é uma argumentação um tanto mesquinha, não? Vc pode discordar e apontar o que não concorda, mas é um exagero dizer, ainda q vc ache q estou errado, que isso tira toda a validade do meu argumento.


  9. Certa vez, aguardava meu irmão na Estação da Luz, faltava um tempinho ainda para ele chegar e eu andava de um lado para o outro, observava o movimento, a diversidade, mas chegou um momento que eu precisava sentar. Aí, reparei que não havia nenhum banco no saguão ou do lado de fora da estação. Acredita que só depois de ler seu texto que me toquei o por quê?

    Que delícia seria descansar sentada numa praça no meio da correria da metrópole. É triste encontrá-las abandonadas e sem vida. Num parque, por exemplo, é possível sentar na grama, o que ainda mais gostoso. Mas, quanto às praças, a presença de moradores de rua dormindo nos bancos realmente afasta os demais cidadãos do espaço. Por medo, preconceito, incômodo, sei lá… Não estou generalizando, mas concordamos que isso acontece. É uma questão tão complexa, não dá para tentar resolver de forma prática. Seria preciso uma transformação social e cultural. O fato é que o que é público é nosso. Como, então, podemos mudar isso?

    Bom senso, respeito e limite (sim, é preciso regras) talvez resolvam a questão. Chegar nesse resultado é que são elas.

    Agora, fechar o parque às 19 horas é sacanagem. Aliás, deveria ser aberto e não com grades. Sei que a violência é um dos motivos, mas o que fazer?

    Tantas interrogações…

    Só não concordo com um ponto levantado nos comentários: não acho legal comparar a nossa realidade com outros países, especialmente os da Europa. Podemos nos inspirar, mas não comparar.

    Gostei muito do blog!


  10. A Praça de República e outras praças de São Paulo têm bancos “antimendigo” (e que acabam sendo bancos “antiobeso” também): os bancos têm braços de metal delimitando o lugar de sentar. Uma pessoa não consegue deitar ali, nem um gordinho cabe no espaço tão restrito. Confesso que fiquei chocada quando vi. OK, temos um sério problema de população de rua, mas achei uma verdadeira atitude “joga a sujeira pra baixo do tapete”.


  11. [...] É proibido sentar [...]


  12. É.. proibem tudo. A coisa mais legal seria pegar um livro e ir em frente ao mar. Mas como minha cidade não é litorênea (Curitiba), penso em ir pra algum canto bonito. Aí já é difícil achar esse local bonito. Quando se acha, cadê o banco? Cadê paisagem? Cadê o mar, poxa?


  13. Ótimo post, parabéns! O que ocorre aqui onde moro é uma revitalização das praças, mas pra isso, com a alegação de que fazem “muita sujeira”, muitas árvores são cortadas. Há bancos, muitos, mas não há árvores, não há sombra. Conclusão: em dias de Sol, ninguém em sua sã natureza biológica consegue suportar o calor que frita os miolos. Falta planejamento adequado. E olha só, as pessoas que “planejam” os espaços públicos são os que não os frequentam. Tem coisa muito errada aí: é o rabo que tá balançando o cachorro!


  14. [...] anticidade, não há espaço para pessoas. Só há espaço para o trânsito. Quando o Alexandre de Moraes instituiu a restrição a [...]


  15. [...] Agora voltemos lá à questão proposta inicialmente, e onde a questão fica metafísica: você já abraçou alguém hoje? Já sorriu? Parece bobo, mas a qualidade de vida está diretamente ligada ao nosso senso de pertencimento a uma comunidade. E isso não é possível se a gente não tem tempo, se não tem espaços públicos de vivência. Aqui vai uma teoria minha, livremente baseada no empirismo: o Rio é mais sociável e desencanado (oras, no Rio nem se usa essa palavra) do que Sampa porque lá existe a praia. A praia é a praça pública, elemento agregador e democrático, que une todas as classes e estilos. São Paulo peca pela falta de espaços públicos de qualidade. Sem falar que, nos que aqui há, mal se pode sentar. [...]



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