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Um rio de pobreza

dezembro 14, 2011

Ponte sobre o rio

Ponte Estaiada - Foto de Daniela S Nassetti

por Caroline Derschner

Me assusta o fato de que nossas sociedades não sabem lidar com a riqueza. Perpetuam e replicam a pobreza quase que inconscientemente. Rejeitam a prosperidade com ilusões de uma outra riqueza, a material, que é só meia riqueza, frágil e falsa quando sozinha. E como se não bastasse, edificam e constroem sobre ela. Nossos estranhos valores sobre a concepção de riqueza se desenham no próprio planejamento e ambientação das cidades, e em como elas se apresentam a nós. Um exemplo disso são os rios.

Qualquer cultura humana sabe (ou sabia) que a água é sua fonte de riqueza primordial, de onde vêm todas as outras. As sociedades e as cidades foram cunhadas no entorno de fontes de água. A qualquer época e em qualquer tempo, um grupo que sai em expedição para fixar moradia sabe, e sempre soube, que é próximo ao rio e à água que deve se instalar.

Em São Paulo, não foi diferente. Assim como se passou com outros rios, o Rio Pinheiros foi um vetor de crescimento, ocupação e urbanização. Um vetor de riqueza. Só que hoje ele está morto. Um morto que não enterramos, como fizemos com outros rios enterrados vivos, que viraram grandes avenidas.

Nas culturas com maior conexão com a natureza, o rio é um presente. A fonte máxima de prosperidade, garantia de vida e estabilidade. Mas, veja só, o rio ainda é sinônimo de riqueza hoje, pois traz em si embutido as palavras: subsistência, transporte, turismo, clima, e inevitavelmente, riqueza, em todos os seus sentidos. Mas nós não vemos nenhuma dessas palavras, e em cima do Rio Pinheiros escrevemos apenas: esgoto, lixão.

O que piora um pouco tudo, é que a presença de um rio-esgoto, convivendo calmamente conosco, não diz outra coisa senão que matamos o rio e que convivemos com isso tranquilamente, como algo aceitável. Já faz parte da cidade conviver com um cadáver. O Pinheiros é rio somente no nome. Na prática, vemos só o esgoto.

Às margens do Rio Pinheiros, todo um mar de desenvolvimento. É uma das regiões mais ricas da cidade. Ali, no entorno do rio, deságuam investimentos bilionários. A riqueza flui para lá sem obstáculos, mas sequer toca no rio, a ponto de transformá-lo, como transforma o que há em suas margens.  E ali, naquele lugar, todos enxergam riqueza e prosperidade. Todos olham com orgulho para os prédios e novos empreendimentos que dali brotam com facilidade  – ninguém quer olhar para o rio e para a pobreza que ele perpetua.

Somos assustadoramente pobres.

Perpetuamos a pobreza do fluído vital da cidade. Pelo acordo unânime de que não há recurso suficiente ou disponível para limpar o rio (sobre o qual ninguém se atreve a voltar atrás), segue uma sentença: “Há coisas mais importantes para cuidar do que o rio”. Que coisas são essas, que merecem o destino de nossos recursos?

Imagino que em algum momento da história demos o salto incontestável (rumo ao precipício) que nos libertou da natureza e nos fez independente dela, não é mesmo? Em algum momento deixamos de ser homens que construíam vilas e aldeias graças ao rio e nos tornamos outra coisa, que não depende mais disso.

A terceira margem do rio

A terceira margem do rio - Foto de Henrique Nunes Fotografia

Quando exatamente abandonamos nossa condição humana nos tornamos super-homens? Afinal mudamos, nos tornamos outros seres, só a natureza continua a mesma, servindo bondosamente a nossa ingratidão.

Agora nós, seres civilizados, temos um novo cartão postal, símbolo da prosperidade e do crescimento de nossa cidade, no qual foi injetado prioritariamente uma considerável quantia de nossa riqueza (na direção certa? Quase, passou por cima!): uma ponte.

Uma ponte que chama mais atenção do que o próprio rio. Uma ponte para atravessar o rio, e deixá-lo para trás o mais rápido possível. Ou ficamos de um lado ou do outro, pois lá, perto dele, ao lado dele, ninguém quer ficar por muito tempo. Ninguém quer demorar seus olhos no horizonte daquele rio.

Estar lá, junto ao Pinheiros, agora nos parece uma experiência empobrecedora, que pouco a pouco talvez até nos tire algo.  Talvez a própria felicidade.  Talvez a própria compreensão de mundo.

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2 comentários

  1. Como fazer para mudarmos este panorama? Aqui onde moro, na Brasilândia, descem de algumas nascentes da Serra da Cantareira, muita água, de excelente qualidade, que são despejadas em um rio de esgoto que deságua no rio Tietê.

    Toda água mostrada neste vídeo é despejada em um rio de esgoto.

    Precisamos de apoio para realizarmos um projeto.


  2. Tive essa sensação de que somos todos cúmplices desse assassinato, pois passo por esse morto todo dia para ir e voltar do trabalho. Comentei isso com uma colega de trabalho que, como a maioria dos paulistanos, concorda com uma leve indiferença. Parabéns por ter captado essa idéia e arrematá-la com esse testemunho da pobreza imaterial dos habitantes dos grandes centros urbanos.



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