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Sobre abraços e sorrisos

fevereiro 2, 2011

Abraço

Um abraço - Foto de Librarian Avenger.

Já abraçou alguém hoje? E na última semana? Talvez o último mês? Seja sincero: não estou falando de abraços sociais, aquele com dois tapinhas nas costas e um (dois ou três, dependendo do seu estado) beijo de bochecha. Falo de abraços fortes e sinceros.

Aliás, já que eu levantei a bola, diz aí: você lembra dos melhores beijos que você já deu? Não perguntei com quem foi o beijo, mas o beijo em si, a sensação exata. Agora volte no tempo e relembre os abraços realmente verdadeiros que já recebeu. Lembra? Em quem você gostaria de dar um abraço hoje? Pense: um abraço verdadeiro. Eu me lembro com perfeição de alguns desses grandes abraços.

Ok, ok. O que isso tem a ver com o Quintal? Ou com sustentabilidade? É uma boa pergunta. E a resposta não é menos do que filosófica, metafísica, uma provocação mais incisiva da sempre presente pergunta “Pra que serve uma cidade“: afinal, pra que serve tudo isso? A vida, enfim.

Já que este post é o post das perguntas, lanço mais uma: conhece a FIB, Felicidade Interna Bruta? Essa ideia surgiu num lugar de nome engraçado – o Butão. Aliás, senta que lá vem história:

Em 1972, o rei daquele país, Jigme Singye Wangchuck, com apenas 17 anos, reagiu a críticas de que o Butão estava crescendo muito pouco segundo os critérios do PIB. Como todo bom governante – ainda mais de país pobre – , ele disse que não era bem assim, que o país ia crescer muito, chamou o FMI e fez uma enorme reforma que industrializou o pequeno Butão (hein? hein?), o que culminou em gente muito mais rica, mas também em aumento das desigualdades sociais. Certo?

Errado. Ele disse que o país ia se modernizar e se abrir, mas que a coisa mais importante era a Felicidade do povo e que esse seria o caminho norteador do seu governo. Criou o Centro de Estudos do Butão e foi pesquisando o que tornava um povo feliz. A iniciativa, um tanto original, inspirou muita gente e, se era motivo de crítica e chacota inicialmente, tornou-se uma ideia respeitada e bastante pesquisada hoje em dia.

O FIB, ao se opor ao PIB, opõe-se à ideia de que é desejável o crescimento desenfreado da economia. E que isso traz bem-estar para a população. É verdade que, até certo nível de renda, o bem-estar melhora. Afinal, quem não tem o que comer e onde dormir mal pode se preocupar em ser feliz. Mas, após certa renda per capita, essa relação deixa de ser direta. Se não me engano, seria algo em torno de 10 mil dólares per capita. Depois desse nível, faz pouca diferença. A partir daí, outros fatores tem maior peso. E, em geral, um crescimento constante da economia leva a um crescimento também no impacto ambiental.  O que, finalmente, poderá trazer pior qualidade de vida para as pessoas. Os municípios com maior índice de desmatamento na Amazônia são também aqueles com maior número de assassinatos.

Agora voltemos lá à questão proposta inicialmente, e onde a questão fica metafísica: você já abraçou alguém hoje? Já sorriu? Parece bobo, mas a qualidade de vida está diretamente ligada ao nosso senso de pertencimento a uma comunidade. E isso não é possível se a gente não tem tempo, se não tem espaços públicos de vivência. Aqui vai uma teoria minha, livremente baseada no empirismo: o Rio é mais sociável e desencanado (oras, no Rio nem se usa essa palavra) do que Sampa porque lá existe a praia. A praia é a praça pública, elemento agregador e democrático, que une todas as classes e estilos. São Paulo peca pela falta de espaços públicos de qualidade. Sem falar que, nos que aqui há, mal se pode sentar.

Digo mais: desde que resolvi incluir abraços no meu dia a dia, a vida ficou muito melhor.

E então: vamos tornar nossas cidades lugares mais agradáveis para se viver? Pra terminar, deixo um poema do Drummond.

Sentimental, Carlos Drummond de Andrade.

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

– Estás sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências, um cartaz amarelo:
“Nesse país é proibido sonhar.”

:::

Aproveite e leia também:

Por um mundo mais lúdico. E lúcido.

Free Hugs

Espaços públicos como políticas públicas.

É proibido sentar.

Para que serve uma cidade.

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4 comentários

  1. Ah, sem dúvida que eu me lembro do último abraço sincero que eu dei, foi na Talitinha. Beijo, foi na minha maezinha ainda ontem. A minha criança linda cada dia mais criança…

    Em você, em você eu dei uns agarroes sinceros, que também vale…lindão…

    agora sem brincadeira…

    abraço(sincero)

    Márcio Campos


  2. Adorei. A felicidade está na simplicidade.

    Abraço virtual beeem apertado pra você! 🙂


  3. Obrigado, Silvia. Pra vc também. 😉


  4. […] Sobre abraços e sorrisos […]



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